O Adeus

00:06

Chegaste e abraçaste-me como sempre me abraças - forte e com demora.
Foste a correr até à casa de banho mas bem sabia que o teu coração ia apertado.
Enquanto tu te recompunhas na casa de banho, eu estava num passo acelerado pela sala, a pensar que palavras usar e se realmente queria terminar um relacionamento de cinco anos com o homem que mais amei nesta vida.
Chegas e sentamo-nos ao sofá e dei-te uma carta para leres. «Não consigo falar» - disse.
A carta falava de como não nos amavamos a nós proprios e que por isso tivemos todos os problemas que tivemos. Foi uma carta fria, racional, certo. Mas terminei com esperança: «seja o caminho que escolhermos, eu sei que vais estar sempre do meu lado, assim como tu sabes que eu vou estar sempre do teu. Porque mesmo na pior das hipóteses, o amor que sinto por ti é tão grande que vai haver sempre hipótese para tentar tudo de novo, tal e qual um jogo em que viramos à esquerda quando devíamos ter virado à direita e acabamos mortos por um dragão. Há sempre e sempre haverá a opção do «try again» contigo».

Terminaste de ler isto e parecias bem. Disseste que entendias. Pediste desculpa por todos os erros que cometeste comigo e eu só chorava e agarrava-me a ti. Tu fizeste-te de forte como sempre e meteste a piada que sempre metias quando vinhas-me visitar tarde «oh olha as horas, tens alguma coisa para comer?». Fomos até à cozinha, comeste iogurte grego, com sorriso sofrido na cara a tentar apaziguar-me. Pegaste nas bolachas e levaste para a sala.

Falamos de tudo que nos afligia a alma e até brincamos. Brincamos com situações que nos aconteceram. Até que eu disse que precisava crescer...sozinha. E a tua cara mudou. A tua voz mudou. Os teus olhos mudaram. Encheram-se de lágrimas pois ainda tinhas esperança que tudo aquilo não se passasse de um susto visto que estavamos a falar bem. A tua voz falhava e a tua cara ficou cheia de expressão. Deixaste-me o braço e começaste a chorar. E o meu coração afundou. Nunca te tinha visto chorar. Em cinco anos, nunca te vi a chorar! Eu pedia vezes sem conta «desculpa» e tu abanavas a cabeça enquanto dizias que não era culpa minha - quando também foi - pediste-me outra vez desculpa, disseste que erraste comigo e eu disse que também errei contigo e que te queria congelar por uns instantes e pegar-te mais no futuro. «Porque se te tivesse conhecido mais tarde, eu casava-me contigo - na hora!». Fizeste-me ver que estava a ser egoísta e que se sentia assim em relação a ele, com tanta angústia, que eu já devia ter acabado com ele. Disseste tudo aquilo, mas não sentiste. E e reconheço, devia ter tido esta conversa há mais tempo, mas com o divorcio dos teus pais, tentei adiar para te prestar apoio - mas tanto nossa situação como a deles se arrastou durante meses e meses.

Levantaste-te, beijaste-me e disseste que sempre me vais amar e que nunca amaste ninguém assim. E eu acredito. Pois eu sinto da mesma forma. Porque apesar de todos os erros, eu sempre sempre te amei. Ficamos abraçados durante pelo menos 10 minutos - tempo que durou uma chamada que pensava que tinha desligado e que a minha mãe ficou pendurada a ouvir-me a chorar.
Fomos interrompidos com interfone de um senhor do restaurante de baixo a dizer que o meu pai estava preocupado a ligar-me e que só me ouvia a chorar. Nisto corro para o telefone e atendo a minha mãe em lágrimas aflita sem saber o que se passava.
Tínhamos de terminar com uma situação caricata, depois de a começar de forma caricata.

Pegaste no telefone ao ver-me incapaz de falar e explicaste a situação. Não aguentaste também e choraste enquanto tranquilizavas a minha mãe. Ali estava, ao telefone, o homem que amei - o homem que sempre sempre, apesar de toda a dor, fazia frente a tudo e ajudava-me.
Chorei, choramos, dizia que estava arrependida e que não queria acabar, e tu disseste que me amavas e que não sabias como ias entrar no teu quarto com tantas lembranças minhas. Fotos, cartas, presentes...
Também tenho isso tudo. O que faço com estas lembranças físicas? E as mentais?

Saíste de repente para não chorar mais à minha frente e deixaste-me aqui sozinha no apartamento em que tantas vezes estivemos juntos. Deitei-me no sofá e chorei. Mandei mensagem a uma amiga mas arrependi-me. Não quero falar com ninguém, só choro chorar. Deito-me novamente e reparo que a manta onde te encostaste durante estas quase 4 horas, tem o teu cheiro. 

Era suposto sentir-me aliviada ao falar de tudo. Porque é que estou assim, sem chão e sem forças? Porque é que choro tão alto, porque é que fui buscar aquele casaco que foi teu que te ficou pequeno e que me emprestaste e por cá ficou? Porque é que fiquei no silêncio sem vontade de ligar a tv que estava sempre ligada para abafar o silencio que outrora pensava ser insuportável? Porque é que me arrependi de te ver a ir embora? Porque é que sinto que afinal tudo que via de errado em ti, eram apenas meros detalhes? Detalhes estes que te prontificaste em corrigir - e sim, desta vez senti que estavas a falar a sério - mas que por alguma razão vez-me ver que eu não estava pronta para seguir e corrigir os meus erros?
Será que vai valer a pena este sofrimento todo só porque queria «caminhar sozinha e crescer»? Porque não crescer contigo e para ti? Dizem que não estamos bem com os outros se não estivermos bem connosco, mas será que eu quero estar bem comigo própria desta forma tão dolorosa?

Não sei mais o que sentir em relação a ti. Apenas sei que ainda não consigo deitar fora a caixa de bolachas que terminaste e a embalagem do iogurte. Sei também que não consigo ir comer apesar de estar com fome. Sei também que não me apetece levantar-me deste sofá de onde choro e peço ajuda, mas onde há 20 minutos atrás dispensei os meus pais.

Nunca passei por isto. Foste meu primeiro e queria que fosses o meu último. Mas chegaste na minha vida em tão má hora...




(Não fiz revisão do texto. Quando estiver melhor vejo se há erros. Obrigada pela compreensão.)


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11 Comments

  1. Se aceitares um conselho, deixa-me dizer-te que é normal o arrependimento, afinal, amas e estás apaixonada, mas, nunca ames ninguém, mais do que te amas a ti própria, perder o amor próprio é a pior coisa deste mundo. No entanto, as coisas ainda não acalmaram e ainda não estás a ver o quadro todo, dá tempo ao tempo, e verás que daqui a uns dias ou semanas, vai ter a certeza do que queres e se essa foi a decisão certa a tomar, pois se foi, então todo o sofrimento valerá a pena e vai passar.
    Força!*

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    1. Antes de mais: desculpa pelo atraso! Foram dias complicados...
      E obrigada pelo comentário...a ver vamos como vai correr esta nova fase!
      Beijinho

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  2. Pode custar mas vais ver que foi o melhor*

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    1. A ver vamos :) desculpa o atraso e obrigada pelas palavras querida!

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  3. Me fez chorar, sei como deve estar sendo difícil. Mas eu acredito que sempre tomamos a decisão certa se ouvirmos a nós mesmos. Força! Muita força!

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    1. Eu ouvi e felizmente para o futuro, mas infelizmente para o agora, foi a decisão tomada e agora é esperar o tempo passar...
      desculpa o atraso! e obrigada sempre por passares por aqui! Beijinho

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    2. Não consigo avisar no teu blog que já te respondi. espero que vejas aqui :/
      desculpa. beijo

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    3. Acho que eu consegui arrumar, se eu não consegui, me avisa tá? Obrigada. Beijos

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  4. Que situação triste! Mas acontece... Só o tempo dirá se a escolha foi a correta!

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    1. A ver vamos então...
      Obrigada e desculpa o atraso! Beijinho

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  5. Concordo com a Suzana...Até lá, calma..

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